Nas esquinas do Catete, em um dos melhores barzinhos do Rio, estava Marlon. Estava sentado em uma mesa preenchida por latinhas vazias e surdo por um tumulto de barulhos que ecoavam pelos cantos.
“Digo mais sobre Marlon, de quando o conheci. No vigor dos trinta anos, alegre, vivo, cheio de ginga, dançarino de primeira (se impunha na quadra, samba solto no pé), tipo contador de anedota, chegado a um rabo-de-saia, metido a bom-de-bola, exímio na sinuca, amante de umas e outras em qualquer botequim, craque na viola e festeiro que só ele. Enfim, um ser social querido por muitos.”
Foi nesse contexto que o reencontrei. Porém o Marlon de meu tempo já fora mais simpático. Cumprimentei-o, ao que me respondeu apenas com um balançar de cabeça. Uma conversa artificial: muito trabalho, pouco dinheiro, contas e contas a pagar. Parei para observá-lo um pouco mais e resolvi por me levantar E deixa, deixa; foi mais um dos meus camaradas das antigas afogado pelo sistema. E não serei eu que lhe dará um boca-a-boca! Agora me vê uma cerveja bem gelada que tenho uma piada à contar, garçom.
Laura Chaloub (versoreverso)
*O trecho em itálico pertence ao conto Marlon Pimenta da Silva de Jorge Hausen.