E a gente tem um pouco disso. De um querer sofrer por momentos que já são mais do que predestinados. Por sonhos e desejos que vão se despedaçando como um vidro que toca ao chão. Em milhares e trilhares de pequenos e ínfimos pedaços. Despedaçam até que dentro de mim se criem forças contrárias que expressam falsas verdades e, fora, uma máscara que se entrelaça às máscaras das outros tantos tolos que me sustentam o olhar. Lágrimas reprimidas por centenas de segundos, de minutos, de instantes. Lágrimas reprimidas até o fim de sua existência. Repressão de pensamentos, de dores, de palavras. Repressão de vida.
O quarto amontoado de pensamentos e sonhos despedaçados e esmagados é vazio e sombrio. Com excessão do desenho de meu corpo na penumbra do cômodo. Meu olhar baixo à seguir o contorno tortuoso das tábulas de madeira. Frio que está dentro e fora de mim, vento que entra pela janela, falta de tudo me arrepia a pele. Falta de calor, de luz, falta de tudo que me fazem os olhos lacrimejarem. O peito apertado por meus braços e por uma força espiritual que o esmaga e grita por um apelo à vida. Para que acorde de um sonho permanente.
A cama desarrumada já não me angustia a mente, pois esta está da mesma forma. Os lençóis escorregam pelos pés da cama de madeira escura e engolem o chão como uma onda engole tudo que vem pela frente. E avançam englobando os sonhos, os sapatos, a poeira. Eu. Os lençóis me alcançam e me envolvem, primeiramente aquecendo-me. E o suspiro de alívio que me sai dos lábios é apenas momentâneo, porque as ondas de algodão envolvem todo meu corpo e o engolem completamente. Me falta o ar, me falta a força e, de olhos arregalados que se perdem na imensidão branca e enfim luminosa, me faltam os desejos. Os sonhos.
Numa tentativa quase que estúpida para sobreviver, meu corpo se contorce pedindo por um pouco de ar que o quarto tanto tinha com a ausência de tudo. E não morro, apenas sinto uma descomunal necessidade de respirar. Quando puxo o ar, o lençol cola em minha boca e me sufoca. Me tira a vida e meu corpo treme de alguma coisa que não sei o que. O frio volta, a falta aumenta. Não perco a visão e o branco continua a navegar por meus olhos. Não morro, tremo e temo. Temo o que há por vir e o que foi. E choro pelo que não foi, pelo que não foi. Pelos sonhos e ilusões destroçados. Choro pelas letras e palavras reprimidas. Choro por você e por mim. E pelos lençóis que grudam a cada centímetro do meu corpo suado. Não me falta ar, não me falta ar. O que me falta é algo além desse ar que tomou forma dentro de mim.
Laura Chaloub (versoreverso)
O Branco é essa folha de papel que espera pelo meu lápis afobado, meus pensamentos agitados, minhas ideias que tropeçam umas nas outras, as palavras de meu coração. Impressões de meus olhos: cores, formas e movimentos. É o cheiro do alecrim, laranja, tangerina, limão. Os sons que escuto: vozes do passado, confusões nas ruas, buzinas, conversas, passarinhos, vento. Branco é o uivar do vento. Campainha da porta da frente, visita chegando. Branca é a pele da minha amiga, do cabelo da minha avó, da barba do meu avô. É o leite da minha mãe, primeira vez que me alimentaram. Branco da blusa que eu uso de vez em quando que, suja, fica cinza, mas ainda branca. Tenho um casaco com botões brancos que vivem a cair, tenho livros que tem um título que se estende pelo branco da capa. As teclas do piano são brancas mesmo quando pretas. Luiz Raul divide o branco em dezessete: Qualquer que seja a cor da galinha, o ovo é sempre branco. O branco do olho é sempre branco. A alma é sempre branca. Caio Fernando Abreu escreve sobre o Limite Branco: mas será mesmo que existe? A cegueira de José Saramago é branca também.
A folha, mesmo que preenchida por minhas palavras, continua sendo branca; a pele pintada com maquiagem de minha amiga ainda é branca. A casca do ovo, mesmo sendo de galinha araucana, é branca. A nuvem, mesmo que colorida pelos raios de um sol que se põe, é sempre branca. O Branco é tudo ou é nada? A palavra é branca, o tudo é branco, o nada deve ser também branco…
Quando pequena, tinha um peão de arco-iris que, quando girando, ficava branco. Se branco fosse nada, aquelas sete cores misturadas não poderiam gerar branco; mas geram. Quando encaro o papel branco, ele me espera, me anseia, me deseja para que eu transforme tudo que pode ser, mas ainda não é. Se branco fosse tudo, o papel não pediria por mim. O papel não precisaria de mim. Quando um pintor pinta a escuridão, pode ficar branco de medo. Quando há trégua em meio a uma guerra, diz-se bandeira branca, mas se é autorizado qualquer atitude mediante necessidades, também usa-se o branco: uma carta branca. Para nós, escritores, um verso branco é aquele que não possui rimas, mas branco rima com saltimbanco.
A paz é branca, o riso é branco. E o papel que desenham, que escrevem, que mudam de forma, que transformam, que deixa de ser papel nunca deixa de ser branco. Nunca deixa de ser a potência de alguma coisa. Branco é nada? Sim, branco não é nada de concreto, nada de abstrato, nada significativo. Mas branco é tudo de nada. Todas as potências de qualquer coisa que ainda não são. Que nem se quer virão a ser. Mas é. Branco é tudo ainda que não seja nada. Branco é o azul, é o amarelo, é o mar, que vive a mudar de cor. Branco é quando se tem todas as cores, mas também é quando não existe cor alguma. Afinal, que cor tem o branco?
Laura Chaloub (versoreverso)
Repito centenas de vezes para que a calma não encontre o caminho para que possa fugir de mim. Repito mil vezes para que as lágrimas não escorram por meu rosto, para que a tristeza não se perca pelas minhas veias, pelos meus neuros. Que se perca dentro de mim. Quanto tempo falta para que a respiração falte, para que meus movimentos fiquem cortados? Fecho os olhos com todas as minha forças e choro. Choro um choro entalado e sufocado de tempos. Choro um choro sufocado pelos encontros, pelos desencontros. Pelas risadas que mascaravam os meus verdadeiros sentimentos.
Respiro fundo enquanto o ar ainda me preenche o grande vazio que meu peito se torna pouco a pouco. A vontade de gritar é duramente reprimida pelos meus lábios que permanecem fechados. Trancados. A tanta força que uso para que minhas mãos permaneçam fechadas machuca a mim mesma. Permaneço sentada. Parada. Olhando a vida dos outros que passam pela minha janela e choro. E choro por essa vida que não acontece dentro de mim.
Peço por ajuda, por perdão. Peço em desespero por alguma coisa que me faça sair do lugar. Peço por ar. Por ar que seja capaz de preencher o vazio enlouquecedor que a dor me causa. Peço por sons que não sejam aquela voz. Que não sejam aquelas risadas, aqueles desprezos. Peço por imagens que não sejam aqueles sorrisos. Aqueles desejos tanto reprimidos pela minha mente. Peço incansavelmente por algo que me tire o frio que ele deixou. Peço por alguma coisa que ocupe minha mente insanamente obcecada e choro. E choro por essa vida que não vai.
Recuso-me a olhar para trás, a vida que vem na frente me parece boa demais. E, mesmo assim, tem você, que me impede a passagem. Me impede de andar. Por que? Caminho meu quarto de um lado para o outro. Fecho e abro os olhos com força, esperando que a realidade, como num passe de mágica, se modifique. Altere-se. Espero mudanças que não me ocorrem. E não ocorrerão. E então, como um descuido, deixo-me virar para atrás. Deixo com que a verdade venha até meus olhos. E escorra ainda mais por eles. Que queime minha pele, que arda meus pensamentos. Que doa meu coração. E repito devagar, sentindo que cada palavra que sai de mim forma um buraco ainda maior. E repito, desesperada, que enquanto eu fui sua por um dia, ela foi para a vida inteira.
Laura Chaloub (versoreverso)
Eu comecei andando. Observando cada detalhe daquele lugar estranho e desconhecido. De repente, um rasgo. Uma mudança. Eu que pensava que andava em círculos já não sabia mais aonde estava. Será que era o mesmo lugar? E andava, e andava. Me acostumava com a paisagem até que viesse outro rasgo naquele pedaço de papel branco. Ou o mesmo rasgo mais uma vez. Desculpe, não sei o que me deu que comecei a correr e acabei tropeçando nos tais rasgos. Vamos do começo: eu andava sobre um papel, mas me deparei com um rasgo. É, eu andava em um papel rasgado em uma das pontas onde, de vez em quando, , eu esbarrava nesse rasco e perdia o fio da meada. E andei… deixando para trás tudo que me vinha a cabeça, até que não encontrei mais rasgos, só um espaço branco que parecia ir diminuindo, diminuindo………. até que esbarrei numas palavras que reconheci como minhas. Não deu mais para dar voltas; afinal, eu já estava ficando tonto mesmo.
Laura Chaloub, em um pedaço redondo de papel rasgado. (versoreverso)
Gosto da lua que nasce crua e nua do mar. Da presença exagerada de rumos e da ausência total de remos. Do brilho do sol que reflete no sal do mar. Da padaria: o pão; do vizinho: o cão; da mãe: a mão. Gosto também de respirações, aspirações, inspirações. Da minha letra torta na linha morta. Da vida, da ida, da volta. Da criação e do coração. De um carinho de amigo e de uma carinha familiar. Gosto de infinitos que se perpetuam feito eco. Da torcida que grita “gol”, dos fãs que gritam “Gal”. Dos fofoqueiros que clamam “Ah…mor” e vaiam “Hu…mor!” diante a briga de um casal. Dos masculinos e dos femininos: tanto o mar quanto amar.
Laura Chaloub (versoreverso)
Fiquei inventando motivos para não dormir só para que da minha mente você não saísse. Fiquei repassando conversas, lembrando daquele passado que infelizmente não volta mais. E você. Incansavelmente; que não sai nem por um minuto de meus pensamentos. E um certo toque de imaginação quando penso em teus olhos que fitam os meus, ou seus dedos que percorrem o desenho dos meus. Um pouco de desejo quando imagino um abraço ou apenas um toque, uma respiração contra meu cabelo desarrumado. Eu diria tanta coisa se você estivesse aqui.
Começaria por um pouco de silêncio e uma sequência de olhares, de batidas fortes do coração. Dedos trêmulos, um suspiro. Uma vontade insaciável de falar, mãos entrelaçadas que se apertam uma a outra. Um nó na garganta que não se desfaz. Eu diria tanta coisa se você estivesse aqui; mesmo se o nó apertasse ainda mais. Mas a solidão que se forma quando você não está é grande. Quase que insuportável. Por onde você anda, amor?
Fazia tempo que eu não pensava em alguém desse jeito. Fazia tempo que eu não procurava em minha mente conversas, palavras que saíram da boca de alguém. Procuro as lembranças que tenho que me fazem sorrir nesse tempo que não sei do que será. Procuro um pouco de esperanças por um futuro bom em meio a tanta coisa ruim que já me passou. Procuro um pouco de você nas pessoas que passam por mim todos os dias. Não encontro em um olhar, nem um toque, nem uma palavra tua.
Me perco de noite. Me perco porque sei que mesmo que tão igual, o que sente por mim não é o que sinto por você. E tento me imaginar do seu lado sem ser do jeito que meu coração implora. E com outras pessoas. Outras prioridades. E outros afazeres. Tento me imaginar sem saber o que dizer quando meu coração dá um salto, ou tentando me reprimir por sentir tanto. O silêncio é grande com e sem você, amor. E não ouvir sua voz faz falta. Não estar com você, mesmo só estar do seu lado, mesmo você distraído com outras coisas, outros problemas, outros compromissos. Não importa.
Dentro do meu peito bate forte um coração que não sabe o jeito certo de amar alguém. Dentro do meu peito bate um coração que reprime um salto ou algo que demonstre esse sentimento incrivelmente forte que sinto por você. E dentro do meu peito bate um coração medroso, que pensa que você nunca vai me amar do jeito que te amo, e que nunca te amarei desse jeito estranho que você me ama.
Laura Chaloub (versoreverso)
Hoje cedo morreu um conhecido de um conhecido meu. O clima ficou denso e pesado. E me abalou tanto que parecia que quem tinha morrido era o próprio conhecido meu. Mas não. Quem tinha morrido ali, era eu. Doce foi o som do silêncio dos abraços, quente foi o toque daqueles que choravam. Tive vontade de chorar também. Por aqueles que ficaram. Por aqueles que já foram. Por mim mesmo.
O dia passou arrastado. As cores mudaram devagar. E a chuva, que podia ser tanto aquela que escorria dos olhos dos meus amados quanto aquela que escorria pelo chão da calçada ingrime, demorou a cessar. Descanso. Meu ou dela? A morte ali significava tanto para mim que era quase como uma identificação. Talvez um desejo ou uma curiosidade reprimida por crises e mais crises; como seria fechar os olhos? Descansar.
Passou-me a mente todas as vezes (ou quase todas) que eu me aventurara a desejar um pouco de descanso. Paz. Todas as vezes que experimentei a solidão de estar de fato só. Um ambiente escuro, coincidentemente, denso e pesado. Do meu lado, um copo de água até a metade, uma cartela de aspirinas, uma melodia de piano… Casaco grande e pesado para conter o frio de dentro de mim. Experimentei tomar um pouco de água, tomar um comprimido de aspirina, vestir e tirar o casaco. Mas todas as minhas tolas tentativas de curar a solidão que batia em meu peito terminaram com um suspiro. Da rua vinha o som de uma criança, uma menina. E então me pus a repetir: Menina, solidão não cura com aspirina.
As pessoas, certa hora, se acalmaram. Morrer, afinal, é o objetivo de todos nós; infelizmente uns chegam antes do que outros… Mas dentro de mim ainda batia um coração desesperado, um pulmão sem ar, uma mente vazia. E talvez, toda aquela solidão que eu sentia fora de mim, fosse apenas um reflexo do vazio que se encontrava dentro de mim. Oco, me preenchi de lamentos, de desordem, de sofrimentos. E quanto mais eu tentava preencher o vazio do meu corpo, mais ele crescia. E crescia. E crescia…
Hoje morreu um conhecido de um conhecido meu. E eu passei o dia com as mãos juntas pedindo que o lado de lá seja realmente um descanso para aqueles que sofrem demais. Abracei alguns amigos, amados, queridos. Segurei mão de gente que não gosta ou se importa comigo. Dei um sorriso pra quem chorava. E ai, no final do dia, no meu peito não batia absolutamente nada. Da minha boca já não saiam mais aqueles sussurros implorando por ajuda. Os meus pulmões desistiam do ar. E minhas mãos, frias, trêmulas, fracas, juntaram-se novamente. Meus olhos fecharam-se. Deles escorriam as lágrimas que eu lutara durante o dia todo para que não saíssem. Da minha boca, um suspiro. E de dentro de mim, o silêncio. O vazio. O vazio que me mata, me sufoca e me engole devagar. Até não restar mais nada.
Laura Chaloub (versoreverso)
Nem vontade de escrever mais eu sinto. Agora só me resta um vazio descomunal, uma dor que percorre cada e toda parte do meu corpo. Em minha garganta, o gosto de café amargo e lágrimas salgadas se misturam; em meus olhos, o que eu vejo e o que eu quero ver se confundem. Não sou nenhum tipo de estudante da mente humana, mas acredito que aprendo melhor assim: na prática. Não sou psicólogo, nem psiquiatra. Não entendo de comportamentos, de pensamentos, de sentimentos. Para dizer a verdade, pouco sei dos meus.
Fico deitado o dia todo. Às vezes me vem a cabeça um tema legal, uma história banal, um conto sem final. Nunca termino, porque nunca nem se quer começo. Apenas permaneço no meu estado meio letárgico. Espero que o tempo passe, que a dor passe, que alguma coisa chegue, mas o que? Às vezes dói o simples fato de não ter mais o que botar para fora de mim. As lágrimas custam a sair, mas saem de vezes em quando. Os textos, raramente. As palavras nem me reconhecem mais. Ou talvez seja eu que não reconheço mais as palavras. Esqueci como usá-las; eu o fazia tão bem…
Faz frio o tempo todo. Não sei se fora ou dentro de mim, mas faz; talvez seja o vazio de tantas coisas. Mas não me resta mais vontades. Não sinto come, não vejo mais prazer em uma tarde de outono. A rua não me agrada mais, nem os sons. Gosto do silêncio, ele se confunde com o grito que ecoa no meu peito. Chão, gosto gravidade que ainda me prende ao chão. Gosto das correntes e laços, agora tão apertados e tão irritados que sinto a fragilidade deles, que ainda me abrem os olhos. Mesmo frágeis.
Nem vontade de escrever mais eu tenho. A força que cada ato me pede é extrema,. Um conselho, um retrato. Uma lembrança que se repete infinitas vezes em minha mente. E meus dedos frágeis e fracos já não aguentam o peso do lápis, da borracha ou mesmo das situações. E se me perguntas por quê escrever é tão doloroso, te respondo sem hesitar que escrever é abrir as mais profundas e esquecidas feridas e arrancar todo tipo de cicatriz existente. E é ser envolvido por uma onda de insensatez que beira a loucura. E dói, como se nunca houvesse sido esquecida, ou como se tudo estivesse ocorrendo naquele exato instante. Dói, como se tudo e ao mesmo tempo nada importasse mais.
Faz frio aqui dentro, mas não sei dizer sobre lá fora. E a falta de ânimo para escrever não é mais do que um resultado acumulado desse frio que já não passa a alguns dias, meses. Anos. É resultado desse frio que me arranca as lágrimas e que me destrói um peito já destruído. Ciclo sem fim, infelizmente necessário. Um palavra vale mais que mil atitudes. Um palavra dói mais que mil atitudes.
Laura Chaloub (versoreverso)
Todos voltaram as atenções para a moça que entrava pela porta escura. Tinha rosto e corpo de modelo: olhos grandes e azuis, bem valorizados pela maquiagem escura que usava. Sobrancelhas bem feitas e um cabelo ruivo ondulado que combinava com a pintura vermelha de seus lábios carnudos. Um vestido preto todo justinho que não transparecia nem uma gordurinha a mais nem a menos. Cabeça erguida, olhando sempre para frente sem deixar que nada nem ninguém a desequilibre do salto-alto.
Laura Chaloub (versoreverso)
Nas esquinas do Catete, em um dos melhores barzinhos do Rio, estava Marlon. Estava sentado em uma mesa preenchida por latinhas vazias e surdo por um tumulto de barulhos que ecoavam pelos cantos.
“Digo mais sobre Marlon, de quando o conheci. No vigor dos trinta anos, alegre, vivo, cheio de ginga, dançarino de primeira (se impunha na quadra, samba solto no pé), tipo contador de anedota, chegado a um rabo-de-saia, metido a bom-de-bola, exímio na sinuca, amante de umas e outras em qualquer botequim, craque na viola e festeiro que só ele. Enfim, um ser social querido por muitos.”
Foi nesse contexto que o reencontrei. Porém o Marlon de meu tempo já fora mais simpático. Cumprimentei-o, ao que me respondeu apenas com um balançar de cabeça. Uma conversa artificial: muito trabalho, pouco dinheiro, contas e contas a pagar. Parei para observá-lo um pouco mais e resolvi por me levantar E deixa, deixa; foi mais um dos meus camaradas das antigas afogado pelo sistema. E não serei eu que lhe dará um boca-a-boca! Agora me vê uma cerveja bem gelada que tenho uma piada à contar, garçom.
Laura Chaloub (versoreverso)
*O trecho em itálico pertence ao conto Marlon Pimenta da Silva de Jorge Hausen.
Tem gente que o chama de ídolo, mas eu prefiro professor. Quando sento para escrever, encaro minha estante com seus livros espalhados. E daquela visão (talvez incrementada pelas infinitas páginas de seu trabalho que já li e reli) surge uma pequena epifania. Uma ideia que ultrapassa o limite branco do papel. Surge uma imagem, uma vontade de tentar mostrar a ele que estou seguindo seus passos, seus ensinamentos. E pergunto baixinho: descobriu como é ser amado por algo que escreveu? Dou sorriso pensando nos contos inspirados no carnaval carioca, mesmo ele morando em São Paulo. E pergunto mais alto, para que todos possam ouvir: Por que é que foi embora tão cedo? E junto o melhor da década de 70, 80, 90… Leio, releio, treleio. E começo a escrever no limite branco do papel tudo aquilo que ele me ensinou. E continua ensinando.
Laura Chaloub (versoreverso), sobre Caio Fernando Abreu.
Um quarto é como uma caixinha de surpresas; tem dos grandes aos pequenos, dos enfeitados e decorados aos mais simples. Guardam tudo que se pode querer; um segredo, um suspiro, uma risada, um encontro, uma festa. Escondem fotos, lembranças e desabafos da madrugada. Não exigem arrumação específica ou que você deixe de ser quem é; servem para gordinhos, magrinhos e até gente estressada. Alguns acalmam e outros servem como consultório de psicólogo e ouvem (balançando a cabeça ou não, depende da edição que você compra) todos os desaforos do dia. E quarto é assim mesmo: são todos iguais até você descobrir o que estão guardando.
Laura Chaloub (versoreverso)
Eu ando pelo mundo prestando atenção nos olhos de quem passa, nas roupas, nos sons, no que nunca muda e no que sempre é diferente. Presto atenção na poesia que se forma do conjunto de conversas, buzinas, anúncios; apesar de faltar a rima. E no que falta para rimar, nos exageros, nas ironias; nos ditados populares, nos erros de gramática. No sorriso de quem ri, nas lágrimas de quem chora, no pedido de esmolas, no pedido de oração. Numa canção qualquer, em sinos da igreja, num miado ou num latido. Num coração partido, num tropeço, num desvio ou num sinal e tudo aquilo que couber no meu papel.
Laura Chaloub (versoreverso)